Street Fihter II: O Mangá!

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Você sabia que, nos anos 90, nos QUASE tivemos um mangá oficial de Street Fighter II publicado no Brasil pela Editora Escala?

Pois é. Pra quem não se recorda, Street Fighter II ganhou sua primeira publicação em quadrinhos no Brasil em 1994, numa série em três partes HORRENDAMENTE produzida pela Malibu Comics e com um enrendo de dar dor no CUtuvelo. NA trama, com desenhos dignos da Image NO PIOR DOS SENTIDOS, Ken está gozando (ui) de sua fama e fazendo alguns comerciais, quando é confrontado por Sagat que busca vingança contra Ryu e pretende usar Ken Masters of the Universe. A luta é uma bosta, com ambos soltado hadoukens e tigers uppercuts como a naturalidade de um espirro, e Ken acaba sendo derrotado e… pasmem…ESCALPELADO!!! ISSO MESMO!!!

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Do outro lado do continente, Ryu está se dando bem dando uns pegas na Chun-li com cara de integrante dos W.i.l.d.Cats (e com cara de véia, em alguns momentos) , até que o carro de Ken aparece em disparada e se choca com uma árvore. Dentro dele, uma caixa com adesivo escrito “Para Ryu” e, dentro da caixa, o escalpo loiro de Ken. E a edição termina com Ryu aos prantos com o escalpo do amigo na mão, punho em riste para os céus clamando por VINGANÇA!

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Houve um terceiro número, mas esse eu fiz questão de deixar pra lá. Pra você ter uma ideia de como a coisa ia ladeira abaixo, nesse terceiro número era introduzido um personagem exclusivo da HQ chamado de…Furão.  O personagem, que mais parecia uma versão do Cid Guerreiro de colante, lutava contra o Honda. A série, claro, foi cancelada sem final e a Editora Escala, mais perdida que cego em tiroteio, não sabia o que fazer. Digo, não sabia tanto por ter publicado uma história sem final quanto pelo fato de resolverem criar suas próprias HQs com roteiros de Marcelo Cassaro e arte de Arthur Garcia, ignorado a oportunidade de publicar o mangá que citarei mais adiante em prol de ter “liberdade artística” na criação de seu próprio universo SF.

Fei Long em destaque na capa, sabe Deus lá o por que...

Fei Long em destaque na capa, sabe Deus lá o por que…

Aqui vale destacar os cambalachos do desenhista Arthur Garcia que, nos primeiros números, copiava os desenhos do mangá original. Lá pela terceira ou quarta edição, passou a copiar frames do SENSACIONAL longa animado Street Fighter II, até então inédito no Brasil. Não contente em copiar os desenhos, ele também usava as mesmas poses mudando apenas o personagem que estava na cena. Ou seja, não era incomum pegar o T. Hawk dando o mesmo salto que o Guile deu à umas 3 páginas atrás. Em defesa do nosso “homenageador” Arthur Garcia, isso é comum no mundo das HQs, todo desenhista tem poses chaves que sempre se repetem em seus desenhos. Só que estes desenhistas estão copiando a si mesmos…

Depois de algumas edições sai Marcelo Cassaro e entra Alexandre Nagado nos roteiros. E aí as portas do cabaré se abrem de vez! Temos roteiros esquisitos que copiam descaradamente Dragon Ball  ( o título da trama era “As Esferas do Poder”, vejam só vocês…) e enfiam o 007 de Sean Connery no universo SF. A série foi cancelada antes da publicação do terceiro e último número do arco que introduzia o Akuma. Confesso que, apesar de toda a safadeza por trás da produção dessas HQs, tenho um carinho imenso por elas e tenho as minhas edições até hoje!

Por falar em copiar, até a luta final do filme foi copiada.

Por falar em copiar, até a luta final do filme foi copiada.

Porém, o que pouca gente  sabia é que, em poder do licenciamento oficial da Capcom, a Editora Escala poderia optar por publicar não uma porrada de histórias originais ( e, muitas vezes, de qualidade questionável) com desenhos copiados, mas trazer o mangá original ( o que, provavelmente, fosse mais economicamente viável) e ser a única editora brasileira na época (anos 90, já que temos mangás publicados nos anos 80) a publicar um mangá 100% original, se colocando muito a frente da Corand e JBC e até da Animangá (que publicou Ranma em formato americano antes das duas supracitadas lançarem seus primeiros mangás). O tal mangá em questão era Street Fighter II de Masaomi Kanzaki.

Esse Zangief com derrame é esquisito, mas eu adoro essa capa.

Esse Zangief com derrame é esquisito, mas eu adoro essa capa.

Uma coisa que temos que concordar é que a trama nunca foi o ponto forte em jogos de luta dos anos 80 e 90. Assim sendo, Masaomi Kazanki tinha uma linha básica de enredo vinda dos jogos, mas tomou certas liberdades, algumas bem esquisitas e outras bem bacanas. O resultado é um plot com cara de filmão e artes marciais B, mas MUITO SUPERIOR ao longa com o Van Damme, que É um filme de artes marciais B, e superior também as tramas das HQs da Escala. A história é a seguinte:

Na ilha de Shad, um complexo criminoso, um misterioso homem chamado M. Bison, chefe da “policia” local e aspirante a governador de toda a ilha, organiza um torneio onde o vencedor poerá ser sagrado um de seus “Quatro Reis”, seus homens de mais alta confiança e sub-chefes de suas operações. Lutadores de todo o mundo vem a esse torneio clandestino, cada um com sua motivação, desde o simples fato de querer se tornar um dos 4 até a vingança pura e simples. No meio dessa quizumba toda, surge Ryu, um jovem japonês  mestre em karatê que aparenta estar ali apenas para lutar e testar suas habilidades.  Depois de uma confusão no restaurante dos irmãos Po-lin e Wong-mei (uma jovem e seu irmão mais novos que serão o núcleo ao redor de Ryu na trama), Ryu é desafiado por Balrog, um dos Quatro Reis. Após uma árdua luta, Ryu sai vencedor e acaba por chamar a atenção de outros lutadores.

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Em outro canto da ilha, conhecemos o coronel William Guile e a agente da Intepol, Chun-li, ambos investigando os rumores que a ilha é a fornecedora de uma nova droga chamada Doll, capaz de aumentar os instinto de violência em um ser humano. Vários personagens também vão dando as caras, como Dhalsim, Blanka, Vega, Sagat e, claro, Ken. Aí você pergunta “Ué…mas o Ken não aparece desde o inicio da trama?”, e a resposta é: Não!

Essa não aparição do Ken faz parte de uma das muitas liberdades criativas que o Kanzaki coloca na história. Entre as coisas esquisitas na trama estão o fato do Blanka ser um dos soldados de Bison e estar sempre implorando por um lugar entre os Quatro Reis, o Bison ser uma espécie de Rei do crime, sendo que ele já foi um dos Quatro Reis, como é revelado mais adiante na trama, o fato de que o Shoryuken é um golpe perigoso que põe em risco a vida de quem o usa sem a habilidade necessária de anos de treinamento (coisa que se esperava do Hadouken), e…bem, aqui entram alguns spoilers, esteja avisado… o fato de que foi o Bison quem matou Gouken e não o Akuma durante uma invasão ao dojo onde Ryu e Ken treinavam. No embate, Ken desaparece é Ryu presume que ele está morto. Porém, ele reaparece como um dos Quatro Reis, tomando o posto que Blanka tanto reclama como sendo seu.

O Ken do mal é tão mau, que usa jaqueta de mangá cortada e botas e luvas de gari!

O Ken do mal é tão mau, que usa jaqueta de mangá cortada e botas e luvas de gari!

No mais, a trama é bem similar as demais produções baseadas em Street Fighter: Bison matou o pai de Chun-li e está busca vingança. Bison foi responsável pela morte de Charlie Nash ( na verdade, ele “obrigou”, de forma indireta, Guile a matá-lo) e Guile busca vingança. Sagat teve o peito aberto por um Shoryuken de Ryu e esse busca vingança (mas nunca chega a lutar novamente com  Ryu na trama). Ken tem a mente controlada por Bison e é forçado a lutar com Ryu, após se livrar do controle, ele busca vingança.

E essa é uma das partes legais do mangá, as motivações de cada personagem, seja ele com grande ou pequena participação. Dhalsim, por exemplo, está lá para conseguir dinheiro para ajudar as crianças pobres da Índia, já que o torneio tem altas apostas e os lutadores ganham por luta vencida. Ah, também é explicada a origem das caveiras que usa em seu pescoço.  Zangief luta pela honra e glória da recém desfeita União Soviética, e esse sentimento só aumenta quando tem que lutar com Guile, o representante do “inimigo” capitalista e a chance de dar forma a Guerra Fria, conseguindo assim, a vitória no conflito (na cabeça dele, claro). Honda abandonou a honra do sumô para testar suas habilidades contra outras formas de artes marciais. Balrog era um glorioso campeão do boxe mas, aposentado, achou no mundo dos Street Fighters a chance de brilhar novamente. Ryu, que aparece como quem não quer nada além de lutar, na verdade vinha desafiando lutadores mais fortes para se aperfeiçoar e poder derrotar o homem que matou seu mestre e seu amigo (Ken, que estava vivo mas ele não sabia). São  motivações simples, algumas mais que outras, mas que cabem muito bem dentro do que a trama propõe.

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TODO MUNDO quer vingança nessa porra!

Quanto a parte técnica do mangá, Masaomi Kanzaki tem um traço simples até, mas muito competente. Tem aquela pegada dos mangás/animes dos anos 80. O design dos personagens não difere muito do jogo, mudando apenas alguns detalhes das vestimentas, como o Ken que usa faixas sobre as luvas nos pulsos e aqueles “negócios” sobre os pés mais comuns nos lutadores de taekwondo, a cora da roupa do Honda, aqui vermelha com estampa de quadradinhos, Chun-li e Guile com luvas similares as do Ryu e coisas menores assim. As mudanças mais chamativas mesmo estão no cabelo do Guile, espetadinho ao invés de parecer uma mesinha de centro, o que não incomoda nada, e a armadura que o Bison usa antes enquanto está fazendo pose de “imperador”, quem lembra muito algo saído de Hokuto No Ken, mas que ele tira assim que vai pra porrada.

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As lutas variam muito. Algumas são bem legais, como o primeiro embate  entre Ryu e Balrog, e outras são bem genéricas e rápida, sem muita coreografia. os golpes estão muito bem representados e, apesar de achar esquisito o lance do Shoryuken ser um “golpe perigoso” isso rende alguns bons momentos na história.

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Como, infelizmente, não foi lançado no Brasil e com pouca gente sabendo (ou se importando) com a existência desse mangá, não se encontra nenhuma versão em português pela net afora. Por sorte, encontrei a versão publicada na Espanha pela Editora Glenat enquanto procurava outro mangá de Street Fighter. Essa versão, aparentemente, foi publicada primeiro nos EUA e depois lançada na Espanha. Assim sendo, ela foi dividida em oito edições com as mesmas adaptações que o mangá Akira recebeu: Espelhamento de páginas e colorização digital. E o resultado não ficou ruim, muito pelo contrário. Acho que rivaliza com o bom trabalho feito no próprio Akira!

Enfim, fica aí a dica para quem se interessar ( e tiver saco para ler em espanhol ou inglês). Um mangá simples mas bacana e que seria muito bem vindo nos anos 90. A Escala poderia muito bem publicar os oito números e seguir com sua publicação própria a partir daí, o resultado poderia ser muito mais homogêneo e, quem sabe, muito superior ao que foi. E bem que seria legal ter essas edições publicadas nos dias de hoje, já que as bancas andam entupidas de mangás, alguns bem abaixo da média ou mesmo da fama de Street Fighter, título que, certamente, chamaria a atenção nas prateleiras devido a força do próprio nome.

Nota: 8,0

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PS 1: Acabo de descobrir que estes 8 números equivalem ao volume 1 japonês e que existem mais dois volumes que não consigo achar nem por um caralho em lugar nenhum! Choro como um guerreiro silencioso meditando sobre sua derrota ante os duros  golpes que a vida dá…

PS 2: Acho que esse é o maior post do site até hoje….vai ocupar uns três capítulos quando o livro dos Superamiches for lançado…