Review Confuso: Blame! O longa original da Netflix.

Tsutomu Nihei sabe o que faz! Eu acho…

Se você é leitor de mangá certamente sabe quem é ou já ouviu falar de Tsutomi Nihei. Se você é leitor de comics (os gibizinhos de super-heróis americanos que entopem as bancas atualmente com qualidade duvidosa…) talvez também o conheça, pois além de ter seus mangás Abara, Knights of Sidonia e, mais recentemente, o próprio Blame! publicados em terras brazucas, o cara também desenhou uma mini-série do Wolverine lááá em 2003 nos EUA e que foi publicada pela Panini por aqui em 2007, chamada de Snikt.

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Enfim, Os mangás de Tsutomu Nihei são bem interessantes, apesar de as tramas não variarem tanto: Um herói solitário que enfrenta grandes organizações bizarras em um futuro pós-apocalíptico cheio de personagens também bizarros mas muito estilizados. Até a mini do Wolverine é assim.  Além do mais, são raros os momentos em que Nihei para suas tramas, sempre frenéticas, pra explicar quem é quem, como surgiu cada organização, o que elas fazem e como a porra toda foi pro caralho e deixou a Terra como está. O ponto forte mesmo são seus cenários grandiosos, suas longas páginas “silenciosas”, o visual tanto dos cenários quanto dos personagens e as cenas de ação, também sempre grandiosas, com explosões de fazer inveja ao Michael Bay.

Um dos "monstrinhos" de Abara tetando destruir uma "pequena" chaminé nuclear...(que não penas uma chaminé, tem outro nome no mangá mas eu esqueci...)

Um dos “monstrinhos” de Abara tetando destruir uma “pequena” chaminé nuclear…(que não penas uma chaminé, tem outro nome no mangá , e é mais importante, mas eu esqueci…)

“Mas, peraí, tio Hellbolha…se ele não trabalha a trama, quer dizer que as obras dele são ruins?”, você me pergunta, confuso(a) leitor(a). E eu digo que NÃO! Apesar de ter muita coisa jogada como se o leitor já conhecesse cada organização misteriosa, Nihei ainda consegue fazer seus personagens, sempre “lobos solitários” silenciosos, serem extremamente carismáticos. Sem falar que a já citada semelhança entre suas obras tem uma explicação que poucas pessoas podem saber e talvez cause pequenas explosões de cabeça: TODAS ELAS SE PASSAM NO MESMO UNIVERSO, SÓ QUE EM ÉPOCAS DIFERENTES!

https://www.youtube.com/watch?v=a1Y73sPHKxw

Os Gaunas de Knights of Sidonia tem origem em Abara, história que mostra como a Terra foi dizimada e o por que de KoS se passar em uma colonia espacial. Blame! se passa muitos anos antes de Abara, tanto que em Abara organizações existentes em Blame são citadas como extintas há muito tempo. Biomega parece ter lugar depois de Knights of Sidonia, mas posso estar enganado. Enfim, eu precisaria pesquisar mais a fundo (e reler tudo de novo) pra traçar uma linha temporal. Mas esse não é o assunto de hoje!

Hoje falarei do tão aguardado longa original de Blame!, produzido pela Netflix graças ao sucesso de Knights of Sidonia. Tendo estreado dia 20 deste mês, Blame! adapta o mangá para um longa de 1:40hr, e comete alguns erros que me deixaram um tanto quanto decepcionado…

A sinopse básica da adaptação de Blame! é essa:Uma pequena vila da grande construção vertical em que se tornou nosso planeta, está tendo problemas para arranjar alimento, já que as áreas fora de suas barreiras são vigiadas pelos terríveis Exterminadores da Guarda de Segurança, uma espécie de horda de androides responsáveis por exterminar humanos. Durante uma incursão, um grupo de jovens dessa vila é brutalmente atacado pelos Exterminadores, os sobreviventes são salvos por um misterioso homem chamado Killy, que carrega uma poderosa arma e busca o humanos que possuam o que ele chama de “Genes Terminais de Rede”, algo que parece ser a chave para salvar a humanidade do domínio da Guarda de Segurança.

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Como supracitado, uma das maiores qualidades dos mangás de Nihei são suas cenas de ação vertiginosas e grandiosas, quase non-stop. O grande problema do longa é que essas cenas FICAM NO “STOP”. O longa se afasta do mangá, tirando o protagonismo de Killy e jogando nas mãos de Tae, personagem exclusiva do filme que é mais uma genérica “garota cheia de esperança que acaba se apaixonando pelo protagonista”. As passagens de Killy por esse tipo de vila no mangá são sempre rápidas, já que o mangá foca em sua busca pelos humanos com os Genes Terminais de Rede e se ele não encontra em um lugar, deve seguir adiante. E como essas tramas nunca se aprofundam demais nos personagens secundários e o Killy não é de falar muito, optou-se por trazer toda uma gama de coadjuvantes para explicar cada detalhe da trama. Isso é até compreensível, o problema é que o filme tem uma hora e quarenta e, para uma história que é famosa por ser frenética, uma hora e quarenta de conversa não é exatamente o que se espera de sua adaptação animada…

Tae, promovida a protagonista da coisa toda...

Tae, promovida a protagonista da coisa toda…

O resultado final do longa é uma trama genérica, sem sal, que te faz torcer pra que todo mundo empacote e o Killy siga adiante, pra encontrar desafios a altura. Mas, não! A trama empaca em amores não correspondidos, dramas abobalhados e tudo que um mangá/anime genérico está ENTUPIDO! As cenas de ação existem SIM, mas são 15% de todo o filme, o que, como já dito, é um baita erro numa obra que se baseia em um mangá do Nihei. Como havia sido anunciado tempos atrás pela Netflix, o longa tem um roteiro original, ou seja, excetuando o Killy, a Cibo e uma personagem que aparece no fim do longa, você não verá nenhum dos outros personagens do filme no mangá e vice-versa. No entanto, o longa tem momentos retirados dos dois primeiros volumes do mangá, como o encontro de Killy e Cibo e a construção do corpo da Cibo por ela mesma.

Cibo ajuda Killy após reconstruir seu corpo. Cena sensacional que NÃO ESTÁ NO FILME! Pelo menos não desse jeito...

Cibo ajuda Killy após reconstruir seu corpo. Cena sensacional que NÃO ESTÁ NO FILME! Pelo menos não desse jeito…

Neste momento muita gente, inclusive você, deve estar pensando “Poxa…mas se você disse que não há muitos diálogos no mangá, qual o problema de criar coadjuvantes que expliquem a coisa toda?”, e esse não é o problema, entenda bem. O problema é que a história genérica caberia muito bem em um filme do Pokémon! Se você trocar o Killy e a Cibo pelo Ash com o Pikachu, a coisa anda no mesmo ritmo e até combina mais. Mas o mangá nos oferece uma gama IMENSA de adversários tão bacanas e com visuais tão incríveis para enfrentar o Killy que outra linha genérica poderia ser adotada com um resultado muito melhor: Um grupo da Guarda de Segurança está caçando o Killy e, ao descobrir que ele está tentando ajudar uma vila a conseguir comida e desligar a segurança ao seu redor, sai um a um em seu encalço, gerando duelos espalhados por todo o longa. Aí sim, teríamos algo genérico mas tão frenético quanto o mangá, e ainda manteria os coadjuvantes que saíram de um episódio sombrio de Pokémon, com suas funções de dicionários ambulantes.

Vilã com visual bacana do segundo volume do mangá que TAMBÉM NÃO ESTÁ NO FILME!

Vilã com visual bacana do segundo volume do mangá que TAMBÉM NÃO ESTÁ NO FILME!

Tirando minha birra com a trama lenta. tecnicamente o filme é competente. Tenha em mente que, assim como a maioria dos animes originais da Netflix, incluindo Knights of Sidonia, não temos a velha e boa animação tradicional (que, temo, será usada de maneira minima daqui à uns anos) e sim um CG com Cel Shading (técnica usada para renderizar o CG de modo a aproximá-lo da animação tradicional em 2D). Porém não causa incomodo e até me agrada em dados momentos, já que permite pequenas nuances de modo mais natural, como as informações que os olhos do Killy e da Cibo geram no melhor estilo Homem de Ferro.  Sem falar que não temos personagens que parecem estar com torcicolo o tempo todo, com a cabeça mal encaixada no pescoço, como acontece na atual série de Berserk e até em sua trilogia de filmes, por exemplo, e com as mãos que se movem sem parecer que tem uma armação de arama ao invés de ossos (Berserk de novo…).

O saldo final? Lento, longo e com o protagonismo tirado das mãos do Killy, Blame! não me agradou de todo. Não foi uma total tragédia mas também não é um filme que me deixou uma vontade de ver de novo. Ah, sem falar que pode haver um pequeno spoiler no perto do fim filme pra quem ainda está lendo o mangá, coisa inevitável se você quiser ver o filme e que, honestamente, nem arranhou minha vontade de continuar lendo o mangá. Agora é continuar lendo Blame! pela JBC, essa sim, uma obra que sempre me deixa uma vontade de ver de novo.

Nota: 7,0

PS: Blame! tem uma série em anime com episódios curtos de uns 5 minutos cada, mas é uma maconha mal fumada da porra que também elimina a ação em prol de cenas non-sense no melhor estilo dos dois episódios finais de Evangelion. Segue um vídeo com todos os episódios compilados em formato de OVA mas com legendas apenas em inglês. Veja se tiver paciência…

https://www.youtube.com/watch?v=EunStGCKlSU