Dossiê Macross – Super Dimension Fortress Macross

Tudo tem que começar em algum lugar.

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No distante ano de 1982 estreou no Japão a série animada Macross era diferente de tudo que já havia surgido até ali. Surgido de uma idéia baseada em uma prassódia, o conceito original era um desenho sobre uma neve espacial gigante chamado Megaroad. A prassódia era a sonoridade em japonês de megaroad, mega estrada, com megaLOAD, megacarga, pelo fato da nave ser gigante e tals. Por sorte isso foi limado e ficou uma ideia de um desenho mais sério chamado Macross. Mesmo assim alguns trocadilhos ficaram como o fato de um dos investidores querer que a nave se chamasse Macbeth e a palavra maguro, atum em japonês. Essa virou até referencia no próprio desenho.

Mas Macross sobreviveu aos trocadilhos e Idéias Idiotas Iniciais (I.I.I ) e buscou sua própria identidade, se diferenciando de Gundam e do nascente gênero de Real Robots.

Em primeiro lugar, os Valkyries. Jatos de combate que se transformam em robôs (mechas). O conceito não era inédito na verdade, foi criado por Go Nagai, sempre ele, em Getter Robo, mas Macross fez melhor, principalmente por levar sua maquinaria para o lado mais realista, seguindo os passos de Gundam, lançado 3 anos antes. Os Valkyries não eram máquinas únicas e especiais. Eram veículos de guerra e tratados dessa forma.

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Ainda menos que Gundam, os protagonistas não eram “os escolhidos”. Eram sujeitos normais em tempos de guerra. A guerra inclusive não era o principal elemento da história, mas um pano de fundo para a vida dos personagens.

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E falando nisso, Macross foi responsável pela primeira ídolo de anime, Lynn Minmey e transformou sua dubladora Mari Iijima em uma celebridade da noite pro dia.

A história então.

No ano do futuro do pretérito, 1999 uma nave estelar de um quilômetro (é um pouco maior que isso e por favor, deixem de lado a física de um objeto de 1 quilometro caindo) cai na Terra, na remota ilha de South Ataria,  depois da última grande guerra, o governo mundial reconstroi a nave, e usando engenharia reversa criam novas tecnologias, incluindo o caça transformável  VF-1 Valkyrie. Dez anos depois da queda da nave, batizada de Macross, a viagem inaugural do veiculo está prestes a começar.

Na cidade que cresceu ao redor da nave chega o piloto de shows aéreos, Hikaru Ichijyo, convidado por seu irmão mais velho adotivo, o piloto militar Roy Focker. Ele chega causando problemas, se intrometendo com seu avião civil na exibição dos Valkyries, sendo por isso chamado atenção pela oficial de Ponte Misa Hayase. Ao pousar tem o avião tem o primeiro contato com Lynn Minmay.

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As coisas se complicam quando uma frota de naves alienígenas entra no sistema solar. Eles identificam a Macross como uma nave alterada de seus inimigos e lançam um grupo para investigar. De repente, os sistemas da Macross se ativam sem aviso e fazem um disparo que destrói  a equipe de investigação alienígena. Inicia-se uma guerra.

Os alienígenas, que chaman a si mesmo como Zentradi, enviam uma tropa para capturar a nave, o capitão Gloval, decidido a não deixar a Macross ser destruída ainda em solo ordena a decolagem, com resultados, bem aquém do esperado. Os motores antigravidade resolvem lutar contra os Zentradi sozinhos, simplesmente rompem o casco e se vão.

Na cidade Hiraku tem seus próprios problemas, tendo cochilado em um valkyrie, decolado e sendo derrubado nas ruas da cidade. Sua tentativa de sair dali transformando o caça em mecha, a chamada forma Battroid acaba tão bem quanto a situação dos motores gravitacionais da Macross. Ele simplesmente cai em cima da casa da Minmay. Ele a tira da zona de combate transformando o mecha em algo com controles mais familiares, o híbrido de jato e mecha GERWALK. E tenta leva-la para os abrigos onde a população se escondeu.

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O capitão Gloval, em uma medida desesperada ordena o acionamento do sistema de dobra (Fold), ainda não testado. Afinal, o que poderia dar errado?

Mesmo sem Timmy Turner dizendo essa frase, UMA coisa funciona nesse dia e a Macross é envolta em  campo de dobra que lhe permite sair da zona de combate. O problema é que levou consigo TODA A PORRA DA ILHA E UM PEDAÇO DO OCEANO!

E eles foram parar na órbita de Plutão também.

O sistema de dobra foi pro vinagre e então a Macross vai ter que voltar, levando os habitantes da ilha (que felizmente estavam em abrigos selados), com motores convencionais. Uma longa viagem. Os habitantes são colocados dentro da nave, junto com tudo que podem levar da ilha, atracam os dois porta aviões que estavam lá nas laterais da Macross e seguem viagem.

Os habitantes constroem uma cidade dentro da nave e tentam viver a vida o mais normalmente possível. O que é interrompido as vezes por ataques dos Zentradi. E segue a história, acompanhando principalmente as vidas de Hiraku, que se alistou na aeronáutica, a oficial Hayase e  Minmay, que se torna famosa ao vencer o concurso Miss Macross. “Mas Zuaiste” diz o nerde chato, “que idiota e bobo, um concurso de miss no meio de uma guerra, é só pra dar importância praquela rachada horrorosa da  Minmay”.  Seu imbecil, qualquer um que saiba a importância de manter a moral elevada em tempos de guerra, principalmente lidando com 50.000 civis, aplaudiria a ação.

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Com o tempo vamos conhecendo outros elementos, como o fato dos Zentradi serem gigantes, suas relutantes aliadas e ocasionais inimigas, as Meltrandi. Esse é um detalhe importante. Os Zentradi são uma raça guerreira, composta apenas por homens que se reproduzem por clonagem. As Meltrandi são mulheres e vivem da mesma forma. Embora aliados, não convivem e se desgostam na verdade, com conflitos frequentes. Eles vivem para a guerra contra as misteriosas Forças de Reconhecimento e apenas isso, não conhecendo nada mais além da guerra. Isso é importante pra história.

E é uma das razões do porque os Zentradi não aniquilam com a Macross. Sim, claro, ela tem muita capacidade de combate e a inventividade humana venceu mais de uma luta, mas aquela frota Zentradi tem MILHARES de naves e é apenas uma entre MILHARES de frotas espalhadas pela galáxia. O fato é que os comandantes da frota, Britai e seu conselheiro Excedore, estão intrigados com aqueles minúsculos seres, miclones como chamam os humanos e o fato de homens e mulheres conviverem.

Tem uns plot twists interessantes no caminho e uma das coisas mais bem sacadas da série, que, pra bem ou pra mal se torna um dos elementos centrais da franquia, que são as músicas. Vejam bem, após o concurso, Minmay se revela uma cantora de talento e se torna um grando ídolo na Macross. Os Zentradi, durante suas investigações descobrem essa coisa chamada música e são fortemente afetados por ela, fascinados e até mesmo paralisados. As canções de  Minmay então se tornam a melhor chance da humanidade contra os Zentradi. Eventualmente muitos deles se aliam aos humanos, para experimentar mais dessa “cultura”.

 

Não essa cultura mas logo os Zentradi descobririam as Meltrandi

Não essa cultura mas logo os Zentradi descobririam as Meltrandi.

 

Muitas músicas foram compostas pela própria dubladora de Minmay e o fenômeno que se tornou foi tão bom quanto ruim pra sua carreira, visto que ela ficou muito marcada pelo papel.
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Tenha em mente o que eu disse sobre o foco ser os personagens e a forma como eles vivem essa guerra, então o triângulo amoroso que se forma entre Hikaru, Minmay e Hayase é um dos pontos vitais da trama, fora outros dramas entre os personagens secundários, como Roy, o supremo ás humano Max e a ás meltrandi Myria. O final da série é agridoce, melancólico até.

Macross é uma das minhas séries favoritas de todos os tempos, mas não está imune a algumas criticas.

A animação, mesmo se considerarmos que é do começo dos anos 80 tem seus altos e baixos. Os altos estão nas cenas de batalha ou de ação em geral e curiosamente, as cenas normais dos personagens, muitas vezes não são tão bem feitas. Creio que é possível dizer que a animação da série não envelheceu bem. Não tão mal quanto outras produções do mesmo período, mas pouco graciosamente.

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Mas não se deixe enganar. Myria virou uma bela duma MILF.

 

Os fillers, embora poucos, estão presentes, como o momento que três Zentradi miclonizados se infiltram na Macross. Uma vantagem pelo menos é que os fillers aqui apresentam uma ou outra coisa que faz avançar a trama.

Embora a maioria dos personagens sejam interessantes, sinto que devo destacar um pouco Lynn Minmay.

 

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Inspirada em uma cantora da época da segunda guerra, Vera Lynn, e na música Lili Marlene, alemã mas popular com todos os soldados, Minmay é, além de ser uma das protagonistas, a personagem mais importante da série, e sua influencia vai muito além na franquia e fora dela até. A evolução da personagem, de adolescente ingênua à cantora e finalmente, ídolo, passando por fases onde a fama e a responsabilidade de ser um raio de esperança parecem esmaga-la, a tornaram muito querida pelos fãs. É até possível antipatizar com ela, por algumas decisões que ela toma, mas a tornam profundamente humana. As músicas na série são bonitas e ingênuas, soando exatamente como soariam em uma adolescente. É interessante notar a diferença entre essas canções da série e as posteriores, no filme Ai Oboete Imasu ka e no especial Flashback 2012, que são mais belas e maduras, talvez acompanhando a própria dubladora e o papel de Minmay.

E já que falei um pouco dos personagens, vamos às máquinas. Comecemos por uma tão importante que dá nome à série. A Macross. Alguns diriam que falta a ela, talvez, elegância e beleza. Tolice. A criação do mecha designer Kazutaka Miyatake é uma bela nave, funcional e imponente. Quando a Enterprise virar um robô de um quilometro aí os cuecas de dilithium podem falar alguma coisa. Não é nada mal também ela carregar poder de fogo para varrer Darth Vader e sua Frota Imperial do espaço com um disparo. Fora que os pilotos dos Valkyries REALMENTE acertam os disparos.

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Eu podia ficar discorrendo em como os Valkyries são fodas e tudo mais. Mas não vou. E nem precisam acreditar na minha palavra quando digo que são. Trabalho do inspirado Shoji Kawamori, os Valkyries e outros mechas são maravilhosas máquinas de destruição.

 

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A saga de Macross no Brasil merece um capítulo à parte.

Aqui, Macross apareceu primeiro como Nome Código: Robotech (explico em outro post,  pra quem não sabe ainda), numa época tão maluca que foi lançado em dois formatos, VHS e Betamax(!!!)pelo SBT Video e teve propaganda na TV. Vejão.


Pedi por meses para ganhar essa fita e quando finalmente ganhei, lembro bem dessa noite, era a fita do Voltron.

Mas enfim, consegui eventualmente ver e era muito foda, ficou gravado na minha mente, principalmente a música Watashi no Kare wa Pilot e Shao Pai Long, isso vai ser importante. Mas por alguma razão era difícil achar a fita nas locadoras e isso meio que sumiu.

Eventualmente passou na Globo, na Sessão Aventura depois no Xou da Xuxa, no esquema Globo de passar desenhos, fora da ordem e foda-se, por pouco tempo e tals, ainda que vez por outra passava algum capítulo, como o de natal, no fim de ano, as 5:00 da manhã. Anos depois, tendo apenas uma vaga lembrança das musicas na minha cabeça, vi algo parecido na apresentação de um jogo de NES de um amigo, e ali, finalmente descobri o nome original da bagaça.

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Macross depois passou com o nome Guerra das Galáxias, sendo exibida pela Record e posteriormente pela CNT que passou a série toda, quase na ordem até o final. O longa, Macross Ai Oboete Imasu ka chegou a ser lançado aqui em VHS também com o inspirado nome de Macross: A Batalha Final.
A série teve 36 episódios e o filme, Macross: Ai Oboete Imasu ka, que reconta a história da série. Eu ia escrever sobre o filme mas vai ficar muito grande e deixemos isso pra depois, pois quero apontar as diferenças entre a série e o filme.

Macross é, sem dúvida merecedor de estar entre os quatro pilares da animação japonesa (junto com Gundam, Evangelion e Tetsuwan Atomu), com uma bela mensagem, sobre como uma canção poderia parar uma guerra.